O PIOR VEM AGORA

NÃO CHORES POR MIM EM CURITIBA

O Globo – 6 de Outubro de 2014.

Ninguém se deu conta que, ontem, a totalidade da Câmara dos Deputados e um terço do Senado, que funcionarão pelos próximos quatro anos foram compostos. Inerte e desafinado, o reino do eleitor brasileiro funciona em conexão total com nosso modelo especial de democracia desorientada, de progresso sem felicidade, transgressões permitidas. Como a politica somente interessa ao mundo dos políticos, a realidade da sociedade não se interessa mais pelo destino do poder. Tão inexpressivos se tornaram nossos deputados e senadores que, como as assombrações, somente existem se você decidir pensar nelas.

O sistema eleitoral e partidário, através do mecanismo arrecadador do fundo partidário e da distribuição de tempo de rádio e televisão, colocou preço no deputado e fez de graça o senador. Por isso, os partidos políticos não se interessam mais por lançar nomes expressivos para compor o Senado. Agravando o problema, quando chegam lá, a maioria descobre que quer mesmo é ser ministro, prefeito ou governador e uma enxurrada de suplentes engrossa a casta dos senadores que cada vez mais, sem perder o gosto pelo luxo, se dedica a apreciar as pequenas coisas.

Para a Câmara, o fenômeno é inusitado. Quem tiver opinião e não for demagogo perde a eleição. Máquinas partidárias, destinadas a produzir bancadas que gerem um fundo monetário considerável, e largo tempo gratuito de rádio e televisão ­– usado de tal forma envenenada que amplia a fúria e o marasmo do cidadão comum contra a atividade politica – produz o paradoxo mais interessante das eleições brasileiras: os mais votados são os piores.

São três as origens dos puxadores de voto atualmente, responsáveis pela morte do voto de opinião e da liberdade de escolha do eleitor. O campeão de votos geralmente é o dono do partido. O que rouba o tempo de propaganda dos seus colegas de legenda e os deixa dormindo em casa para serem chamados no dia da diplomação, pela sobra de votos acumulada que lhe cai graciosamente na cabeça e que os tribunais eleitorais, essa desnecessidade cara que inventamos, têm o imenso prazer de reconhecer. Há também o tipo exótico, punk da periferia das preocupações relevantes, que circunda os quartéis, as igrejas, os shows de mau gosto, os ginásios e estádios. Circulam na imaginação do povo com seus diminutivos, apelidos, slogans que são rimas, ocupações diversas. São os Zé do Mané, as Ritinha da Mainha. Inesquecíveis são os monarquistas e suas famílias, que se perpetuam nos filhos esculhambando a ideia republicana de democracia de oportunidades, transparência, impessoalidade, razoabilidade.

O princípio da equivalência de tudo e a ideia de que justiça é dar condições à vontade de ser totalmente saciada, além de acabar com a estética do esforço individual, despolitizou a busca do desejo. O Estado brasileiro, de tão presente e inoportuno, esterilizou a energia da sociedade. Tudo é ótimo, tudo é ruim, como se estivéssemos diante de execuções sumárias.

Não é por saber. É por não saber em quem votamos que os males do Congresso são obra nossa

 

PAULO DELGADO é sociólogo.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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