Os intocáveis que ditam os rumos do país

Isabella Tavares – O Tempo

BRASÍLIA – A tese da reforma anunciada pelo presidente Lula era preservar os ministros pelo bom desempenho e competência.

Mas na dana das cadeiras que acabou não acontecendo, pelo menos cinco titulares certamente ficariam sentados, esperando a m sica acabar e influenciando nas decisoes: Jos Dirceu, Antônio Palocci, Luiz Gushiken e Luiz Dulci fazem parte do popular ncleo-duro do governo.

Eles e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, sao respons veis diretos pelo comando poltico, administrativo e econ mico do pas. J passaram por perodos de crise e cr ticas, mas tendem a permanecer no poder.

Reinando da cadeira de ministro-chefe da Casa Civil, Jos Dirceu o que mais deu demonstraoes de for a durante dois anos e tres meses de governo. Em 2004 sobreviveu a maior crise j enfrentada pela administra ao Lula, o caso Waldomiro Diniz, mesmo estando no olho do furacao.

O entao subchefe da Casa Civil e homem de confiana de Dirceu foi acusado, com provas, de negociar com bicheiros o favorecimento em concorrencias, em troca de propinas e doa oes para campanhas eleitorais do PT.

O ministro balanou, deu demonstra oes pblicas de abatimento, mas sua sa da foi logo descartada pelo prprio presidente. O Planalto esvaziou uma CPI sobre o caso, exonerou Diniz e deu o assunto por encerrado.

Dirceu foi for ado a dividir funoes com Aldo Rebelo, que ocupou a Secretaria da Coordena ao Poltica criada na reforma ministerial de 2004. Um ano depois, recuperou espa o na articulaao com o Congresso, retomando o mesmo poder de antes.

Performance

Ele a cara do partido no governo. Mantm a performance petista, inclusive, nos outros minist rios, avaliou o deputado federal Paulo Delgado (PT-MG), que est em Bras lia h cinco governos, explicando a permanencia de Dirceu no cargo.

J o Palocci nunca foi da estrutura do partido, mas eficiente, completou o parlamentar. O ministro da Fazenda, Ant nio Palocci, se transformou no grande conselheiro do presidente Lula. Ainda na equipe de transiao do governo, teve o m rito de acalmar os mercados agitados pela eleiao de um representante dos trabalhadoresê¬’í³”.

No ministrio, manteve a ortodoxia do antecessor, Pedro Malan. Os resultados foram a queda do risco-Brasil, do d lar em relaao ao real e a manuten ao da inflaao em n veis estveis menores at que os do ltimo ano do governo Fernando Henrique.

Em 2004, Palocci foi finalmente coroado com o crescimento de 5% no PIB. O Palocci faz parte do n cleo duro, aquele formado por representantes das vertentes mais fortes do PT e que ficam cada vez mais fortes. Mas tambm nao cai por competencia, disse o l der do PMDB no Senado, Ney Suassuna.

Desse grupo do critrio competenciaé””, ele destacou ainda Dilma Roussef (Minas e Energia), Roberto Rodrigues (Agricultura), Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento, Indstria e Com rcio) e Walfrido dos Mares Guia (Turismo).

Na mesma categoria, talvez se enquadre tambm o presidente do Banco Central e condutor da pol tica monetria. Henrique Meirelles atravessou um per odo de grave crise no ano passado, quando comearam a surgir den ncias contra ele, dando conta de sonegaao de impostos.

Mas conseguiu uma prova da confian a do presidente: Lula editou medida provisria conferindo foro privilegiado ao cargo e permitindo que o titular respondesse as acusa oes com status de ministro.

Discriao

Voltando ao n cleo duro da coordenaao de governo, dois personagens ainda se destacam, a despeito do estilo discreto: Luiz Gushiken, da Secretaria de Comunica ao e Governo, e Luiz Dulci, secretrio geral da Presidencia da Rep blica.

Eles sao fundamentais ao equilbrio do governo, que pautado pela memria petista e pela lealdade eleitoral ao presidente, afirmou Paulo Delgado. Dulci e Gushiken foram fundadores do PT e dividiram, em 2002, a coordena ao da campanha de Lula.

Esplanada dos Ministrios conta com curingas

BRAS LIA Alm do n cleo duro, cuja prerrogativa ser petista, o governo de Luiz In cio Lula da Silva tem o que se costuma chamar de ministros- curinga. Sao aqueles que, pela lealdade ao presidente, pelo campo de atuaao diversificado, ou por apadrinhamento pol tico, sobrevivem as reformas, mudando de cargo quando necessrio.

Os exemplos mais recorrentes sao Guido Mantega, Ciro Gomes, Ricardo Berzoini e Ol vio Dutra. O primeiro comeou no governo como titular do Minist rio do Planejamento, de onde saiu rumo ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econmico Social (BNDES).

Mantega ocupou a vaga de Carlos Lessa nacionalista convicto que deflagrou a primeira crise de identidade do governo. Ciro Gomes sempre esteve na Integra ao Nacional, mas nao foram poucas as vezes em que seu nome foi cogitado para outras pastas. Ainda na reforma de 2004, falou-se que poderia ocupar a Previdencia.

Mais recentemente, foi cogitado para o prprio Planejamento e esteve muito perto de ocupar a cadeira de Humberto Costa, na Sa de.

Lealdade

H, nesse caso, uma esp cie de lealdade eleitoral, criada pelo (Eliseu) Padilha. Ele abre mao do mandato, para servir ao presidente, disse o deputado federal Paulo Delgado, referindo-se ao exemplo do ex-ministro dos Transportes na era FHC.

O Ciro nao disputa mais com o Lula, acrescentou. O ministro, alis, permanece no governo mesmo com a ida de seu partido, o PPS, para a oposi ao. A lealdade a Lula tambm parece segurar no primeiro escalao o ministro das Cidades.

Ol vio Dutra mesmo da cota pessoal do presidente, que o segurou no cargo em 2004 e agora. Correram rumores de que o ex-governador ga cho pudesse ser removido para outra pasta, mas Lula foi categrico: ele muda, mas nao cai.

J Ricardo Berzoini uma mistura de enquadramento e apadrinhamento. Al ado ao Ministrio da Previdencia pela influencia de Luiz Gushiken, ele foi o principal negociador da reforma previdenci ria de 2003. Desgastado, foi mantido no primeiro escalao, tambm por obra do secret rio de Comunicaao, na pasta do Trabalho e Emprego.

FHC tamb m tinha seus imexveis

BRAS LIA Ministros imexveis ou ê°’í´”curingas nao chegam a ser uma exclusividade do governo Lula. Fernando Henrique Cardoso tambm tinha o seu quarteto preferencial, formado por Pedro Parente, Pedro Malan, Jos Serra e Armnio Fraga, que presidiu o Banco Central durante todo o segundo mandato tucano.

Outros, como Francisco Weffort (Cultura) e Paulo Renato (Educa ao), demonstraram lealdade ao presidente, desistindo da disputa de cargos para permanecer at o ltimo dia de governo. De todos os ministros da era FHC, Malan foi o mais estvel.

Ocupou a pasta da Fazenda durante os oito anos de governo, desde 1o de janeiro de 1995. Seu secret rio-executivo, Pedro Parente, teve trajetria diferente, mas nunca saiu da roda principal da administra ao. Da Fazenda, foi para a titularidade do Planejamento e, depois, para a Casa Civil, acumulando, em 2001, o cargo de presidente do Conselho Gestor da Crise de Energia Eltrica.

Se nao foi tao est vel, Jos Serra foi, certamente, um grande curinga da administra ao tucana. Eleito para o Senado em 1994, chegou ao primeiro escalao dois anos depois, tambm no Planejamento. De l , foi deslocado numa manobra polemica para o Ministrio da Sa de, em 1998.

Quatro anos depois, pde exibir uma atua ao administrativa e poltica que lhe garantiu a chance de disputar a Presidencia da Rep blica pelo PSDB. H ainda outro ponto em comum nas listas de ministros de Lula e FHC. Nos dois casos, as equipes econ micas sofreram poucas alteraoes nas reformas ministeriais.

Situa ao muito diferente dos governos anteriores, em que invariavelmente os responsveis pela pol tica econmica eram trocados periodicamente, vencidos pela infla ao. Com a estabilizaao financeira, outras pastas, sobretudo as ligadas as reas sociais, em que os resultados demoram ou nunca aparecem, ficaram mais visadas.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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