Os protegidos da sociedade

Os protegidos da sociedade

O Globo – 6 de Abril de 2015

Doutor Joaquim aplica Band-Aid no corpo do atropelado certo que o paciente sofre, mas não é bem sua dor que interessa.  Não pode operá-lo, temeroso da reação de quem provocou o acidente. Ganha tempo inadmissível dando aulas de ficção para enfermeiros de Chicago, pois sabe que a dona do hospital não está em condições de demiti-lo.

Os governos democráticos no Brasil abusam do direito de governar quando testam o limite do cidadão para a prudência e a temperança. Os apetites pessoais que tem levado nosso país a crises politicas rotineiras e sucessivas não nascem da sociedade. Uma geração de descendentes e vítimas do poder arbitrário está chegando ao fim quatro gerações depois vendo a democracia como uma volúpia do poder sobre o desejo das pessoas.  Um estado de espírito que vai e volta, um período excelente, que não dura e nunca é o que estamos vivendo.

A morte do idealismo no Brasil e da simplicidade da politica é resultado da proliferação de líderes de comportamentos velados cujo poder não é o recebido dos eleitores. É a politica exercida como autoexame, mesmo que sob a ótica de pessoas honestas, permitindo a vitória do mundo privado, pessoal, sobre a farsa do universo constitucional que não rege mais nada. Atualmente dinheiro e vulgaridade dominam tudo, fazendo a politica não se submeter ao princípio da verificação e por isso seu significado prático não precisar ser demonstrado. Bastam variações do velho modelo do presidencialismo de reeleição para capturar a energia social em direção a cópias de cópias de ideias de escassa autoridade. A relação entre a política e a sociedade não é mais essencial. Virou uma dominação fundada na correlação que seleciona membros para a construção de interesses e a formação de trincheiras de sócios em clubes exclusivos.

No momento que o Estado quiser encontrar na sociedade uma coletividade essencial à sustentação do nosso país no mundo, ele deixará de ser a farsa deste modelo como o toleramos.   E nele a politica será uma atividade simples de pessoas que pretendem e possuem vocação para representar os outros. Por que hoje, se as coisas não são simples, não é por serem complicadas ou complexas, é por que andam falsas. E neste quadro, cada “novidade desnecessária”, exige alguém necessário.  E por causa disso no Brasil qualquer coisa só existe se for regulamentada. Nos países viáveis só se regulamenta o que dá errado. É esta má tradição que confirma que nunca tivemos nenhum governo seguro que a Constituição é a lei que protege a sociedade contra a falta de limites do governo.

Não deveriam ser efemeridades essas magnificas intuições econômicas e politicas desses 21 anos de presidentes de esquerda que não conseguiram ir além do condicionamento histórico de seus sonhos pessoais. Afinal, o governante aqui descumpre a lei dizendo que é para salvar a democracia. Mas o que sempre se viu é que tudo que é urgente para nossos democratas serve para justificar algum arbítrio e seu método injusto.  O modelo político e econômico atual chegou ao fim. Se anda insepulto é por ser protegido da sociedade.

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PAULO DELGADO é sociólogo.

 

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Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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