‘PT prefere o marketing’ – Entrevista: Paulo Delgado

Israel Tabak – Jornal do Brasil

O deputado Paulo Delgado, do PT mineiro, notabilizou-se pela luta contra a “indústria da loucura”, como são chamados ainda hoje os gigantescos manicômios particulares que se mantêm com dinheiro repassado pelo governo. Ao ver o seu nome incluído por engano na lista do mensalão, o parlamentar teve mais um motivo para se lembrar de uma comparação que costuma fazer: a vida partidária está se transformando num manicômio, ou no “sanatório geral” descrito na letra de Chico Buarque. Raimundo Ferreira Júnior, que era assessor do deputado, em 2004 foi ao Banco Rural receber uma ordem de pagamento. Só que ele também era assessor do escritório nacional do PT e nessa qualidade é que lhe foi confiado um envelope lacrado, entregue pessoalmente ao então tesoureiro do partido, Delúbio Soares. O deputado nada tinha a ver com o episódio, o que foi ratificado ontem em nota pelo secretário-geral do partido, Ricardo Berzoini. Para Delgado, foi mais um susto dos muitos que tem levado com a chegada do seu partido ao poder central. Autor da lei que proíbe a propaganda pessoal dos governantes, critica os companheiros no Planalto por hoje darem preferência à versão e não ao fato concreto e lamenta a prioridade conferida pelo PT ao marketing e à propaganda centralizadora: – Com isso, o partido feriu um dos princípios da boa gestão pública – denuncia.

· O PT virou o partido do marketing?

– Eu não aceito e não consigo compreender o fato de o PT ter se envolvido com o marketing, a propaganda e a publicidade, substituindo a sua natureza original. O marqueteiro do PT era o admirado Carlito Maia, que criou slogans famosos.

· Quais os grandes males da propaganda para o PT?

A verdade perde o seu poder de convencimento. A versão passa a ser mais importante. Isso se aproxima do pior da política, que é o erro poder ser transformado em acerto. A concentração de recursos numa única fonte, a Secretaria de Comunicação, fere o princípio da criatividade em publicidade e o da descentralização, que, por sua vez, fere o princípio da boa gestão pública.

· Mas a crise está mostrando que o governo transformou a publicidade em algo ainda mais danoso…

A concentração de recursos é um dos principais fatores da corrupção. Onde há mais dinheiro há mais corrupção. Depois de seu envolvimento com a política, e o conseqüente uso do dinheiro público, a publicidade brasileira se tornou a mais cara do mundo. Transformou campanhas políticas em campanhas irresponsáveis. O PT se envolveu com a época anterior, quando o Estado era dividido para estabilizar o poder. O passado invadiu o governo. Incorporamos no conceito de estabilidade a partilha do Estado. É o presidencialismo de cooptação, que confunde o público e o privado.

· A partilha das estatais é uma das origens da crise…

O tamanho da base parlamentar do governo ficou vinculado à distribuição de empresas públicas para partidos políticos. Não faz o menor sentido as estatais pertencerem a partidos.

· Por isso está sendo difícil para o governo explicar a crise?

– O governo está errando porque não está se antecipando à produção da prova. Tem que explicar claramente que recursos está manejando, como circulam e para quem circulam, além de esclarecer para quem foram entregues grandes somas de dinheiro. E no fim tem que reconhecer que errou e punir quem errou. O erro dos outros não absolve o PT.

· E a ajuda aos partidos aliados?

– É uma novidade ruim. O PT, como partido popular, ajudando os partidos conservadores. Isso é um escândalo.

· Aparece de novo a governabilidade…

– Você pode fazer aliança, mas não precisa assimilar os métodos dos outros partidos. A estratégia criada se revelou desnecessária. O PSDB e o PFL votaram conosco no primeiro ano. A partir de metas comuns o governo poderia apresentar os seus projetos e obter apoio. Não havia necessidade de uma base fisiológica. A grande surpresa do nosso governo é a fragilidade doutrinária na ação. Não precisávamos ter abandonado o processo de mudanças que já vinha desde os anos 90 e que estava rompendo com essa arquitetura trôpega do sistema público brasileiro.

· A relação com o Parlamento também ficou desgastada…

– Mostramos desconfiança em relação à democracia parlamentar e à rotina do Congresso. O governo considerava uma virtude hostilizar o Parlamento e com isso fez crescer o seu braço fisiológico. O braço mais nacional, de Estado, que está presente nas bancadas de centro, direita e esquerda foi se sentindo desestimulado, sem ter o que fazer.

· E como fica o presidente Lula em todo esse contexto?

– Ele não pode imaginar que as críticas que recebe têm a ver com sua origem. Pelo contrário. É elogiado por isso. É um erro pensar que está sofrendo críticas das elites. Nós do PT somos a elite política brasileira. E ele é o principal líder dessa elite. Lula precisa ter a noção do sacrifício que existe na noção de autoridade. O fato de ter construído um grande partido necessariamente não produz uma boa gestão pública. O dilema do governo até agora é que não satisfez a esperança que produziu.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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