UMA HISTÓRIA SEM FIM

UMA HISTÓRIA SEM FIM

O Globo – 5 de janeiro de 2015.

Mantenha a esperança, disse-me a esperança e, em seguida, avançou filosofando: só quem nada espera à suas lembranças recorre. Preocupada com os jovens, contemporizou como o poeta: não queira um pão melhor do que pode ser feito desse trigo.

Todo mundo sabe que com a política não há novidade. Como seu interesse não se define em termos morais, seus mistérios são inúteis. Um ar cada vez mais rarefeito de teoria e doutrina combina muito com a parte mais visível de pessoas indiferentes a especulações abstratas ou emoções estéticas. Não é um defeito, nem incomum, a mente material e prática predominar nessa atividade que sempre cheira à dissidência. Mas para não alimentar a sedição é prudente evitar dar ouvidos aos que acreditam que persuasão combina com ferro e fogo. Se interessar mais pela Constituição e dar à lealdade à lei o mesmo valor da gratidão aos aliados ajudaria muito a evitar suas incertezas.

O Brasil se acostumou com a pressa e as convicções de vento dos seus partidos políticos. Tornou-se sócio de um número de facções tão espetacularmente singular que fez dessa atividade quase uma irrealidade. Nosso pluripartidarismo é exclusivamente um fato do mundo dos políticos e seus interesses. Não tem correspondência cultural, religiosa ou social como a que explica esse fenômeno na Índia, por exemplo, onde tudo é multidão. Os tipos previsíveis que nascem a cada dia nesse laboratório de siglas se deslocaram da vida da sociedade para viverem dentro dos seus trinta céus esplendorosos. Legendas e nomes com aquele ar de proprietários de seus votos dados a quem quiserem, primeiro um parente necessitado, é óbvio. Como a imensidão do oceano, cada vez mais só desponta dali um gosto de sal.

Diferente de Dona Baratinha, sem dinheiro na caixinha mas com fita oficial, a Presidente o que mais tem é pretendente. Com alto índice de ambiguidade diante do poder, por aqui todas as maiorias politicas se parecem. O que as distingue de tempos em tempos são os ciclos de prosperidade e contenção, as ondas ascendentes ou descendentes da esperança em que vive imersa a sociedade. Sistema eleitoral e político como o nosso, de velhas panelinhas e renovada insinceridade, lembram embarque e desembarque de navios. Não são interesses democráticos, na maioria das vezes, que decidem sucessões dentro das coalizões governistas.

Fernando Sabino riu dos provincianismos na literatura brasileira em carta a Clarice Lispector. Recordo-a, aqui, livremente aplicada à politica. Devemos reabilitar o amadorismo: cada defeito a menos tem sido um pecado a mais nos profissionais. Desistir de muita inteligência e classificar os tipos a partir de categorias mais simples: políticos redondos, quadrados, políticos cônicos, políticos piramidais. Enquadrar logo aliados afoitos em subespécies: os que começam e se acabam. Os que nos acabam e não começam. Os que começam mas não acabam. Os que nem começam nem acabam. E por fim batizar ministros com locuções correspondentes: o “Apesar de Tudo”; o “Ainda Mais”; o “Contra o Qual”; o “Ele Outra Vez”; o “Ora Bolas!”; “Ora Pro Nobis”…

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PAULO DELGADO é sociólogo.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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